Nos Bastidores da TV, Aprendi Que Nem Todo Protagonista Merece o Papel
Trabalhar na TV parece glamouroso. E é.
Mas glamour, como maquiagem de alta definição, só funciona porque alguém fez o dever de casa antes. Eu cheguei ali depois de ser notada na recepção de outra empresa. Parecia até uma historia cinematográfica, digna de um filme, ou uma novela. Não por currículo extraordinário. Por comportamento.
Fui convidada para integrar o departamento comercial. Vendíamos segundos. Pode parecer pouco tempo. Mas na TV, segundos custam milhões — e erros custam reputações.
O que mais me impressionou não foi o tamanho da marca. Foi a estrutura.
Mesmo estando em Curitiba, meu contrato era do Rio. Tudo funcionava por sistema. Registro. Protocolo. Conferência. Nada era “acho que foi”. Era comprovado. Existiam processos, para tudo e qualquer coisa, desde a assistência de um computador a compra de uma saco de pó de café.
Antes de qualquer comercial ir ao ar, existia uma coreografia invisível de checagens. Era quase cinematográfico. Cada pessoa sabia exatamente o seu papel.
Ali eu aprendi a primeira verdade incômoda: Improviso é romantizado por quem não tem processo. E processo não é falta de criatividade. É respeito pelo risco.
O departamento comercial, como todo bom departamento comercial, tinha aquele clima levemente competitivo. Metas altas. Egocentrismos discretos. E, se a seleção não fosse criteriosa, era possível identificar traços que hoje eu descreveria como… perigosamente tóxicos. Se eu tivesse alguma formação, um diploma, ousaria dizer que comportamentos sociopatas.
Porque alta performance sem caráter é só um problema que ainda não explodiu.
Eu trabalhava com dois executivos completamente diferentes. Um era frio. Calculista. Estratégico. Poucas palavras. O outro era humano. Próximo. Caloroso. Ambos batiam as metas. Mas apenas um construía ambiente.
Isso me ensinou algo que empresários ainda insistem em ignorar: Resultado e liderança não são sinônimos.
A empresa era quase maternal. Bonificações generosas. Prêmios. Viagens. Reconhecimento. Estrutura impecável. Uma máquina bem azeitada. Mas existe um ponto cego em muitas organizações de alta performance:
Quando alguém entrega números extraordinários, o comportamento vira detalhe. E detalhe, em ambientes competitivos, vira silêncio.
Eu não saí da TV por causa da empresa.
Saí por causa de uma liderança que confundia performance com permissão. Foi desgaste contínuo. Sutil. Inteligente. Hierarquicamente blindado.
Cinco anos.
O suficiente para aprender que empresas não perdem talentos para o mercado.
Perdem para lideranças que performam bem demais para serem questionadas.
E aqui está a tese que carrego até hoje:
Processos protegem a marca.
Mas cultura protege as pessoas.
Você pode ter o melhor sistema do mundo. Pode ter metas agressivas. Pode ter clientes vindo atrás do seu nome. Mas se você promove quem bate meta ignorando como essa meta é batida, você não constrói excelência. Você constrói medo elegante. E medo performa. Por um tempo. Até que começa a expulsar, em silêncio, exatamente as pessoas que poderiam elevar o padrão.
A TV me ensinou organização, responsabilidade e pressão em nível profissional. Mas me ensinou, principalmente, que liderança não é sobre quem entrega mais. É sobre quem consegue entregar sem corroer o ambiente.
Agora eu te faço uma pergunta que talvez seja desconfortável:
Na sua empresa, quem tem mais proteção — quem sustenta cultura ou quem sustenta números?
Porque toda organização é cinematográfica.
O que muda é se você está dirigindo a história… ou apenas aplaudindo o protagonista errado.


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