Agenda cheia, avião marcado… e uma vontade secreta de largar tudo
Eu cheguei ao ápice da minha carreira. E foi ali que eu percebi que estava desalinhada.
Eu estava vivendo o que muita gente chama de sucesso.
Palestrando pelo Brasil.
Aeroportos viraram rotina.
Hotéis, minha extensão de casa.
Estruturando projetos internacionais.
Imersão no Paraguai.
Imersão na China.
Consultorias acontecendo.
Empresas crescendo.
Culturas sendo transformadas.
Processos estruturados.
Líderes sendo desenvolvidos.
Admissões estratégicas.
Projetos especiais.
Coautoria de livros.
Minha agenda estava cheia.
Minha autoridade consolidada.
Meus resultados falavam por mim.
Eu tinha chegado ao ápice profissional. Ao menos ao sonhado por mim até o momento.
E foi ali que algo começou a se mover por dentro.
Não foi uma crise.
Não foi um fracasso.
Não foi falta de reconhecimento.
Foi silêncio interno pedindo espaço.
Eu sempre fui extremamente adaptável.
Aprendi a ler ambientes com precisão.
A ajustar meu tom.
A observar antes de falar.
A me preparar mentalmente para cada reunião, cada palco, cada entrega.
Eu performava excelência.
E fazia/faço isso bem.
Mas existe um custo invisível em estar sempre pronta.
Sempre ajustada.
Sempre forte.
Sempre funcional.
Existe um esforço que ninguém aplaude.
Uma preparação que ninguém vê.
Um nível de processamento interno que nunca aparece nos stories do aeroporto.
Eu ensinava empresas a construírem culturas saudáveis e alinhadas ao propósito.
Mas comecei a me perguntar:
E a minha própria cultura interna?
Ela estava alinhada? E quanto os meus princípios e regras internas?
Eu tinha expandido profissionalmente.
Mas internamente eu estava cansada de sustentar o ritmo da performance constante.
Não era incompetência.
Não era fragilidade.
Era intensidade. Intensidade não alinhada com suas próprias regras.
E intensidade sem pausa vira desgaste.
Em algum momento, entre um embarque e outro, eu me peguei desejando algo que parecia incoerente para quem me via de fora:
Silêncio.
Interior.
Menos palco.
Mais chão.
Menos aplauso.
Mais verdade.
Vontade de largar tudo e ir para o interior.
Não como fuga.
Como reencontro.
Foi difícil admitir isso.
Porque a sociedade nos ensina a suportar o auge.
A manter o crescimento.
A nunca desacelerar quando “está dando certo”.
Mas maturidade é perceber quando crescimento externo começa a custar caro internamente.
Eu não me arrependo de nada do que construí.
Eu me orgulho.
Mas entendi algo essencial:
Sucesso que exige distanciamento de quem você é deixa de ser sucesso.
Vira sobrevivência elegante.
E eu não queria sobreviver bem.
Eu queria viver alinhada.
Às vezes, a maior expansão da carreira não é conquistar novos territórios.
É ter coragem de ajustar o próprio eixo.


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