A Meia de 1 Real Que Me Ensinou Sobre Poder, Postura e Pessoas

Eu comecei vendendo, mas a história começa antes disso... 

 Ali estava eu, saída de Pirapora, interior de Minas Gerais, desembarcando na grande São Paulo como quem troca o quintal por um oceano. 

Com uma mala, 47 quilos mal distribuídos em 1,50m de altura e uma coragem que hoje eu desconfio que era mais ousadia juvenil do que planejamento estratégico. 

 Comecei a trabalhar pouco antes dos 17 anos — mas vamos manter a elegância e dizer que foi pouco antes dos 18. Era tudo meio encoberto. Iniciei como estoquista, carregando malotes que pesavam muito mais do que meus míseros 47 quilos, subindo escadas com caixas que pareciam conter tijolos e não lingeries, com aparência de excursão escolar perdida no shopping. 

 Pouco tempo depois fui promovida a vendedora, e aqui começa o verdadeiro desafio: eu, com cara de criança, vendendo lingerie adulta no Iguatemi. Sim, o Iguatemi. Não é qualquer shopping, vocês sabem disso. 

 Até aquele momento eu ainda usava calcinhas infantis estampadas com a Pequena Sereia e, quando fui provar o primeiro sutiã com bojo, só serviu a linha juvenil tamanho 36. Tivemos que dar um jeito. A solução foi quase uma inovação tecnológica: sutiã com água e óleo, camisa branca, calça social, maquiagem estratégica, salão de beleza e um corte de cabelo que tentava me emprestar alguns anos a mais. 

 Era praticamente um reposicionamento de marca, de menina do interior para “vendedora do Iguatemi”. 

 Foi ali que começou algo que eu só entenderia muitos anos depois. Eu observava postura, tom de voz, vocabulário, ritmo, o jeito de ocupar espaço. Aprendia a ajustar minha comunicação, minha expressão, minha presença. Hoje eu sei dar nome a isso: masking. Elegantemente, podemos chamar de modelagem comportamental, mas na prática era a habilidade de adaptar minha forma de existir para caber no ambiente. Funcionava. 

 Eu performava segurança antes de sentir segurança, maturidade antes de ter maturidade, pertencimento antes de me sentir pertencendo. Mas havia um custo silencioso: a exaustão que ninguém vê. Só eu e Deus. 

Um dia entrou na loja uma mulher muito simples. Nada nela indicava alto poder aquisitivo e eu nem era a vendedora da vez. Percebi aquele movimento sutil que acontece em muitas empresas: ninguém se apressa para atender o que não parece promissor. Eu fui. Mostrei peças com o mesmo respeito que teria com qualquer cliente considerada importante, expliquei tecidos com a convicção de quem defendia uma tese. Ela comprou uma meia 3/4 de 1 real. Um real. 

 No dia seguinte voltou, procurou por mim e levou praticamente a loja inteira. Bateu minha meta do mês. Antes de sair disse algo que nunca mais esqueci: “Eu sempre entro assim antes de comprar. Quero ver como sou tratada.” 

 Ali, entre sutiãs com tecnologia aquática e minha tentativa de parecer adulta antes da hora, eu entendi algo que carrego até hoje na gestão de pessoas, na gestão comercial e no desenvolvimento de equipes: as pessoas estão sempre testando o ambiente, testando respeito, coerência e caráter. Clientes fazem isso. Colaboradores fazem isso. O mercado faz isso. E empresas revelam sua maturidade nos detalhes, principalmente quando acreditam que ninguém importante está olhando. 

 Eu comecei vendendo lingerie tentando parecer mais velha do que era, mas foi ali que aprendi algo definitivo: postura pesa mais que aparência, respeito antecede resultado e comportamento é o maior diferencial competitivo que existe. 

 Quem entende pessoas, entende vendas. E está sempre a frente! 

 E eu deixo uma pergunta para você: na sua empresa, quem recebe o melhor atendimento — quem parece importante ou quem simplesmente entra pela porta? Porque, às vezes, a maior meta do mês está disfarçada de meia 3/4 de um real. E eu, definitivamente não estou falando de meias.

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