Entre Corredores Brancos e Uma Peruca Pink

 

Durante cinco anos, todos os sábados, eu colocava uma peruca pink e atravessava portas que muita gente evita atravessar. Eu virava a Dra. Pink.

Começou quase por acaso. Eu tinha uma peruca rosa.
Meninas gostam de rosa. Meninos criam brincadeiras do contra com a cor.
E, para ser completamente sincera, aquela peruca me escondia, me dava coragem.

Ela escondia minha timidez.
Ela escondia o medo de não ser forte o suficiente.
Ela escondia a Orianna que achava que iria desabar na primeira semana. Eu tinha certeza de que choraria. Achei que seria pesado demais. Mas o chamado que eu sentia de Deus era maior do que qualquer insegurança. Era maior do que eu.

A primeira vez. Eu lembro do corredor. Do cheiro. Do silêncio diferente. Eu entrei no primeiro quarto e não pensei em nada. Era como se algo me conduzisse. Eu não tinha roteiro. Às vezes era música. Às vezes era brincadeira. Às vezes era oração. Às vezes era silêncio.
Às vezes era só abraçar uma mãe que fingia estar forte. Ali eu aprendi que empatia não é discurso. É presença.

Quando a criança diz “não”. Já aconteceu de ouvirem meus passos e dizerem: “Eu não quero que você entre.” E eu respeitava. Porque naquele quarto, quem lidera é a criança. Com o passar dos sábados, a confiança vinha. E poucas coisas eram tão bonitas quanto, semanas depois, ouvir: “Hoje eu quero que você entre.” Era uma vitória silenciosa. Mesmo doendo saber que aquela criança ainda estava ali.

Muitas iam embora. E a gente aprende que “ir embora” às vezes não significa alta.

A criança que me ensinou muito. Teve uma que acompanhei por três anos e meio. Eu fazia contrabando de comidas e brinquedos — com autorização da mãe. Levava desenhos.
Montávamos pista de Hot Wheels no meio da quimioterapia. A coisa cresceu tanto que se estendeu pra fora do hospital, nada aconselhável.  E foi engraçado. Ela ficou decepcionada. Eu não morava na Vila dos Palhaços. E minha casa não era toda pink. Um dia antes de partir, a mãe me ligou: “Ela quer te ver.” Eu fui. Com pizza escondida. Com lápis de cor. Com carrinhos. Nós comemos. Pintamos. Rimos. Fiquei duas horas. Até que ele me disse, agora eu vou descansar!  Meia hora depois que saí do hospital, meu telefone tocou. Ela tinha ido. Eu lembro exatamente da sensação. Não foi desespero. Foi um misto de dor e paz. Eu estava lá.

 No começo, algumas enfermeiras não gostavam da nossa presença, tinha resistência. Depois, pediam ajuda. Mas a verdade é que nós éramos mais transformados do que transformávamos. Eu fui mudada por aquelas crianças.

Eu aprendi que:

Nem toda dor precisa ser resolvida.
Nem todo silêncio precisa ser quebrado.
Nem todo sofrimento precisa de explicação.

Às vezes, o que cura é alguém que fica.

Empatia não é fraqueza.

É coragem emocional.

É a capacidade de sustentar o olhar de quem está sofrendo sem desviar.

Quando eu mudei de cidade, saí oficialmente do projeto. Mas a Pink nunca saiu de mim. Ela ainda aparece. Ela ainda recebe convites. Ela ainda vive. Porque a Dra. Pink não era fantasia. É a parte mais humana de mim. E eu descobri isso dentro de um hospital.

O que eu nem imaginava, mas usaria aproveitaria do voluntariado anos depois:

Você aprende a influenciar sem hierarquia.

No voluntariado, ninguém é obrigado a estar ali. Isso ensina liderança por exemplo e não por autoridade.

Comunicação clara

Você aprende a explicar coisas simples de forma simples. Isso melhora treinamentos, gestão e negociação.

Gestão de recursos limitados

Pouco dinheiro. Pouco tempo. Pouca estrutura. É quase um laboratório de gestão estratégica.

Inteligência emocional

Você lida com pessoas em fragilidade. Isso desenvolve escuta ativa e sensibilidade.


 

Comentários

Postagens mais visitadas