Confissão: meu carisma é limitado

 


Existe uma expectativa social curiosa sobre algumas pessoas. 

Que elas sejam competentes, produtivas, resolvam problemas, liderem gente, tomem decisões difíceis…
e ainda tenham energia infinita para socializar com leveza, simpatia e entusiasmo o tempo inteiro.

Eu tenho uma pequena notícia sobre isso.

Não dá.

Pelo menos não no meu caso.

Meu carisma é limitado.

Não confundam: eu sou educada, profissional, respeitosa e extremamente colaborativa quando necessário.
Eu entrego. E entrego muito.

Mas carisma… carisma eu preciso administrar.

Porque ele acaba.

E quando acaba, acabou mesmo.

Não é drama, não é rebeldia e nem antipatia.
É logística.

Eu literalmente faço gestão disso.

De manhã, quando olho minha agenda, não penso apenas nas reuniões.
Eu faço um cálculo silencioso que mais parece planilha mental:

Quantas reuniões eu tenho hoje?

Cinco?
Sete?
Dez?

Ótimo.

Agora vem a segunda pergunta estratégica:

Sobra carisma para mais alguém?

Equipe?
Amigos?
Família?
Ou hoje ele será consumido exclusivamente pelos clientes?

Porque existe uma verdade pouco romântica sobre interações humanas:
elas consomem energia.

E não é pouca.

Ouvir com atenção.
Entender problemas.
Responder com clareza.
Tomar decisões.
Gerenciar emoções alheias.

Isso não é apenas conversa.
Isso é trabalho cognitivo pesado.

Então eu priorizo.

Clientes primeiro.

Não por falta de amor à humanidade, mas por uma razão extremamente pragmática:
são eles que pagam a conta da operação inteira.

Depois vêm as outras relações.

Se sobrar carisma.

Se não sobrar, acontece uma coisa curiosa.

Eu entro em modo econômico.

Continuo trabalhando.
Continuo resolvendo problema.
Continuo produzindo.

Mas socialmente eu viro quase um iPhone com 3% de bateria.

Funciona.
Mas ninguém espere brilho na tela.

Existe uma romantização enorme sobre pessoas que são produtivas e “boas com gente”.

Como se a energia social delas fosse infinita.

Spoiler: não é.

Algumas pessoas apenas aprenderam a esconder melhor o momento em que o sistema entra em modo de economia de energia.

Eu não escondo muito.

Quando acabou, acabou.

E talvez essa seja a confissão mais honesta que alguém extremamente funcional pode fazer na vida adulta:

Competência consome energia.

Resolver problema consome energia.

Liderar gente consome energia.

E energia social, assim como qualquer outro recurso escasso, precisa ser gerida.

Então sim.

Meu carisma é limitado.

Mas a entrega… essa é abundante.

Cada um trabalha com o recurso que tem.

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