Hiperfoco: meu superpoder (e o seu possível colapso)


Existe uma versão romantizada do autismo na internet.

Aquela coisa meio:
“Ela é diferente.”
“Ela é intensa.”
“Ela é focada.”

Aquela estética “garota misteriosa que gosta de livros e café”.

Ou então a versão esculachada e prejulgadora:

“Ela é fria.”
“Ela é chata.”
“Ela é antisocial.”
“Ela é inadequada.”
“Ela vive no mundo dela.” - Dessa falaremos em outra ocasião.

Amado…
Eu não sou focada.
Eu sou obcecada com método.

Hiperfoco não é concentração.

Concentração é:
“Vou estudar duas horas.”

Hiperfoco é:
“São 3h47 da manhã, eu já reescrevi o projeto três vezes, descobri três falhas estruturais que ninguém viu, fiz um fluxograma novo e agora preciso validar mais uma hipótese antes de dormir.”

Dormir é opcional.
Resolver não é.

O lado corporativo da coisa

Se você contrata um autista com hiperfoco para TI, dados, estratégia, processos, auditoria, qualquer coisa que envolva resolver problema…

Parabéns.

Você não contratou um funcionário.
Você adquiriu uma joia rara.

Essa pessoa não vai “tentar resolver”.

Ela vai terminar.
Ela vai descobrir.
Ela vai desvendar.

Ela não descansa enquanto a equação não fecha.

Ela não para enquanto o erro não aparece.

Ela não aceita “depois a gente vê”.

Ela vê agora.

Ela volta.
Ela testa.
Ela desmonta.
Ela monta melhor.

Imparável.
Imbatível.
Cansativa? Com absolta certeza. Chata!
Mas excelente.

Agora, não tente me acompanhar numa série.

Não tente.

Você quer assistir um episódio por noite.
Eu quero entender o arco psicológico do personagem até a terceira geração da família dele.

Você quer “ver o que acontece”.
Eu quero analisar a construção simbólica da fotografia, identificar o padrão narrativo e descobrir o plot twist antes do roteirista.

Você pisca.
Eu já terminei a temporada.

Você fala:
“Vamos ver amanhã.”

Eu já estou no episódio 8.

É isso mesmo, meus camaradas.
Você vai entrar em colapso.


O que ninguém conta

Hiperfoco não é só produtividade.
É intensidade cognitiva.

É difícil desligar.
É difícil fazer pela metade.
É difícil aceitar superficialidade.

Mas quando bem direcionado?

É superpoder.

Porque enquanto muita gente dispersa,
a mente hiperfocada aprofunda.

Enquanto muitos fazem o suficiente,
ela faz até entender.

E entender, para mim, nunca foi opcional.

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